Projeto Caneta Vermelha

Não é a cor da tinta, é a cor do texto

Solteirona

Oi, Brina!

É, Brina remete a tempos idos, idos… Mas eu estar me sentindo sozinha, não? Estou me sentindo muito sozinha, muito mesmo, profundamente, miseravelmente. A sensação de miséria…

Almocei bem. Arroz e feijão, saladinha de alface e chicória e tomate, linguiça assada. Tomei um café da manhã gostosinho, com o bolo mesclado (receita de vó) que esqueci de untar na forma e grudou, mas estava muito bom, modéstia à parte, cafezinho fresquinho, depois de ter dormido um sonão porque hoje é feriado aqui no Brasil (Tiradentes, coitado), isso tudo na minha casinha, lindinha, arrumadinha, limpinha (tenho faxineira de vez em quando, hehehe). Com todos os apetrechos necessários para uma vida confortável. Não tem carro na garagem, mas o ônibus passa logo ali…

Tenho um filhão lindo, enorme, esperto, que não gosta de escola e adooooooora futebol e bicicleta, enfim, cheio de vida e opinião. Ele é uma das melhores coisas que existem.

Mas, às vezes, sabe depois de lavar a louça? Aquele momento macabro onde pensamos coisas horríveis, talvez motivadas pela chatice do fato de estarmos lavando louça e a vida estar bombando lá fora, gosto de sentar no quintal e tomar um solzinho. E aí, penso: não tenho ninguém. Por ninguém, entenda-se companheiro, parceiro, namorado, marido, pinto, que seja. Não, sou uma porcaria de uma balzaquiana conservadora. Pinto, a gente arruma, não? Só fazer psiu, psiu. Ai, e pra quê? Pra que um companheiro pra eu entrar na roda da fortuna, de novo? “First comes love than comes pain”…

Ui. Sente o drama.

Amiga, estou profundamente solteirona, com todas as características desse tipo social: meio amarga, descrente, preferindo meus livros e meus discos e nada mais, assistir a novela das 9, fazer sessão pipoca sábado à tarde, dormir cedo para aproveitar melhor o dia seguinte… Não está ruim. Achar que não está ruim assim não é perigosíssimo?

A Maria Bárbara, aquela minha irmã que me deve dinheiro e me enrola pra pagar como se eu tivesse que sustentar marmanjo, disparou à mesa do almoço na casa da minha vó que viu o Rafa com outra menina, sem ser a piri-primeira. Na hora, me limitei a um lacônico “coitada”. Depois, sozinha, ai sozinha é que é o bicho, fiquei pensando (grrr…): “Putz, do jeito que ele é, se eu o conheço, já deve estar apaixonado… E eu, aqui! Pensando nisso!”. E eu aqui, te contando isso.

Não. Eu não sinto mais nenhuma afeição pelo Rafa. Mas acho que sou a mulher mais despeitada que existe! Nunca mais me encontrei com ele, frente a frente. Talvez, se encontrar, fique balançada, mas não a ponto de mudar minhas convicções: ele teria que ser outro. É preferível encontrar outro, logo de uma vez.

Encontrar outro? Aí é que está: eu lá quero isso?! Toda aquela vida, de novo: apaixonar-se, morrer de amor, ser a mulher mais feliz da face da Terra, ser boa e misericordiosa, tudo cor de rosa, até que… Toda aquela ladainha monocórdia, que me dá ojeriza!

Ou você está se acabando rir ou em pânico diante do exposto. O fato é que acho que sou um desperdício! Penso que não vejo graça em ninguém, na realidade. Nem tenho me dedicado a esse tipo de busca, pra ser franca: esse negócio de financiar casa é uma chatice (tive que mudar meu CPF porque lá tem o nome da minha mãe depois do divórcio e, na minha certidão de nascimento, ela era casada com meu pai! Botei o Coelho de volta no nome da minha mãe, hahahahaha), tenho trabalhado um bocado, em jornada dupla, de professora e de amélia (do lar), cansei dos parceiros de boteco que tenho tido… Enfim, acho que ando enfastiada.

E você? Ainda me aguenta? Será que alguém me aguenta? Meus alunos não gostam de história, sabia? Aliás, eles vão à escola pra fazer um social… hahaha. Ah, eu não era assim… hahahahaha.

Tá vendo como meu mal é solidão? Conversei com você um pouco e já melhorei o humor…

Brigada, Brina.

Beijo.

PS.1: Que história é essa de ‘miseravelmente’?
PS.2: O Brasil perde muito com seu exílio…

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Publicado às 28 de fevereiro de 2014 por em Cartas para amigas e marcado , , , .
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