Projeto Caneta Vermelha

Não é a cor da tinta, é a cor do texto

Vó,

Quando eu penso na minha infância, além dos meus pais e do meu irmão, outra pessoa que estava sempre presente era você. Você estava presente cuidando de mim, evitando que eu me machucasse, me contando histórias, ouvindo minhas histórias, me ensinando a cantar cantigas antigas, fazendo bolo de chocolate e outros quitutes deliciosos pra me agradar. Lembro até de você jogando bola comigo e com meu irmão e olha que você já tinha mais de setenta anos nessa época.

O tempo passou, as diferenças entre as gerações se acentuaram e eu passei a lidar tão mal com nossas diferenças. Ao invés de optar pelo diálogo, mesmo morando junto com você, eu me afastei. Me afastei porque você falava de religião e eu a tinha abandonado, me afastei porque você falava sobre tarefas domésticas como se fosse minha obrigação e isso me incomodava tanto…

Nossos laços só tinham uma base de raízes bem bonitas e uns brotinhos acima da terra e sobreviveram assim por causa das histórias do passado. A sua preferida era quando eu, aos três anos, falava para todo mundo que minha avó tinha vivido na idade média, tinha morado em castelos e afins, tudo porque eu achava que “ser idoso” significava ter uns 700 anos. Mas você gostava também de contar que eu tinha três anos e um dia você me pegou lendo um cadeado e ficou impressionada e também a história do dia que me pegou prestes a pegar uma aranha imensa com a mão porque achei que ela era peludinha e fofinha.

Acabo de interromper o feitio dessa carta para de pingar o colírio nos seus olhos. E nós acabamos de conversar sobre companhia pra jogar baralho. E queria relembrar de quando você me ensinou a jogar truco. Não sei direito, mas acho que eu tinha uns cinco anos e a gente estava num apartamento alugado numa cidade litorânea e tínhamos acabado de chegar da praia.

Vó, o que eu queria te dizer mesmo é: Me desculpa por ter passado minha adolescência dentro de um palácio da arrogância sem reconhecer como você é aberta a refletir. Hoje vejo você falando coisas tão incríveis para alguém de oitenta e seis anos falar. Coisas muitas vezes mais progressistas que o que muitos jovens falam. Você é uma questionadora e foi uma mulher a frente do seu tempo e eu passei alguns anos cega a isso. Cega para perceber que o diálogo com você é possível e que por mais que você ainda pense coisas muito diferentes do que eu penso, você continua sendo foda.

Quem mais tem uma avó que xinga um padre com palavrão? Uma avó tão alegre que amanhece cantando? Uma avó que quando perde o sono de madrugada fica fazendo ginástica na cama? Uma avó que fala que o personagem homofóbico da novela está errado e é um idiota? Eu podia ficar aqui listando as várias coisas incríveis que você fala e faz…

Vó, você é uma das pessoas mais importantes da minha vida. Uma das bases pra eu ser quem eu sou: inclusive no quesito questionador. E vamos ser sinceras, né? As minhas vitórias frequentes nos jogos de baralho tem origem na sábia professora que tive, né? Te amo!

Thaís

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Um comentário em “Vó,

  1. Zilene
    27 de fevereiro de 2014

    Linda mensagem. Tenho 51 anos e percebo que o que foi dito aki acontece todos os dias, nas mais diversas famílias. Inclusive com a minha mãe, uma mulher de 76 anos de idade. Às vezes tenho vontade de chamar meus filhos e dizer exatamente isso, vocês estão perdendo a oportunidade de compartilhar coisas com uma mulher sábia e compreensiva, a avó de vocês. Aproveitem enquanto ela está entre nós. Mas, não sei por que, desisto nas primeiras palavras… quem sabe um dia.
    Parabéns a você Thaís, que percebeu a tempo o valor de sua avó.

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Publicado às 27 de fevereiro de 2014 por em Cartas para avós e marcado , , , , , , .
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