Projeto Caneta Vermelha

Não é a cor da tinta, é a cor do texto

H,

Nunca na minha vida precisei tanto de silêncio. Um barulho não cura outro, eles se somam, o que torna tudo pior. Quando eu uso o metal para abafar o seu forró, o que você não entende é a violência que está no seu ato. Não no meu. Quando eu sou obrigada a usar um fone de ouvido porque a uma igreja sufoca o meu quarto e minhas tentativas frustradas de estudar, isso também demonstra violência. Se a música serve como violência, alguma coisa está errada. Muito errada.

Além disso, suas tentativas de desqualificar meu trabalho intelectual, segundo você, “inútil” e “não traz dinheiro pra dentro de casa”, também são demonstrações de uma violência que, sinceramente, não sei nem nomear tamanha é minha repulsa, meu nojo, meu asco com relação ao seu pensamento. Sinceramente, estar numa universidade, pesquisar, estudar, não valem de nada então? Deve “valer”, “ter preço”, “ter etiqueta”, “marca”, “slogan”, “aceitar cartão de crédito”, “parcelamentos”? Eu não desqualifico seu trabalho manual, simplesmente não me sinto enquadrada nele. Mas não me diminua por não me encaixar no que você espera de uma mulher. Não é minha obrigação aceitar o que você espera que eu cumpra. Não é minha obrigação me encaixar nas suas ideias.

Meu trabalho é pensar, estudar, escrever, ler. Foi minha escolha e não vou me sentir diminuída por estar sentada aqui rodeada de livros, enquanto você limpa a casa, ouvindo uma música cuja letra agride meus ideais com relação às mulheres e com minha relação com o mundo. Cuja letra você deveria se sentir agredida de ouvir, e cantar. E utilizar como veículo da sua violência.

Muitos me dizem que me faço de vítima. Já ouvi isso diversas vezes e me arrependo de não ter dado as respostas que essas pessoas mereciam. Sempre fui julgada de grosseira mesmo, uma resposta a mais, uma a menos, definitivamente não ia mudar o que essas pessoas pensam sobre mim. Inclusive você. Apesar de você.

Você reclama que eu não te ajudo em nada e que sou uma inútil. Você lembra quantas vezes já me chamou de inútil? Você faz ideia de quando foi a primeira vez que me chamou assim? Você lembra a primeira vez que me disse que eu tinha um “olho ruim”? Você sabia que eu me via pela forma com a qual você me descrevia? Não é pelo espelho que nos tornamos indivíduos, mas sim pela maneira com que os outros nos fazem. É pelo outro que eu sou eu, que eu me torno eu. E eu só tinha você pra me tornar um eu. Só tinha você pra me dizer o que eu era. Eu era uma criança, caramba. Você lembra quando me disse que eu seria mais útil se fosse uma puta e trouxesse dinheiro pra casa? Você lembra quando me chamou de preguiçosa pela primeira vez? Eu não te ajudo não porque não saiba fazer as coisas. Eu sei fazer, eu gosto de fazer. O que não gosto é da tua companhia ao fazê-las. O que não aprecio é o teu olhar, a tua cara, o teu jeito. Você lembra como o mundo inteiro me julgava porque não te chamava de mãe? Você se perguntou alguma vez por quê eu não te chamava de mãe? Você se interessou em ME perguntar alguma vez por quê? Enquanto os outros me apontavam o dedo, você também ajudou. Você lembra a primeira vez que me chamou de inimiga e disse que tinha criado uma serpente sob seus seio? É tão difícil entender que eu sou diferente? É tão difícil me amar pelo que sou? É mais fácil me odiar por não ser o que você projetou que eu fosse? Você lembra a primeira vez que me odiou no seu ventre? Você sabe o que é ser odiado todo o tempo?

Deve saber. Minha avó, pelo que você diz, não foi uma mãe amorosa. Eu entendo. E entendo que minha bisavó também não foi uma mãe amorosa. E minha tataravó abandonou minha bisavó para viver como escrava. Minha avó me contou. O que você não percebe é que estamos inseridas num contexto de violência desde antes de existirmos. É um círculo de violência, que já carregamos nos genes, na memória da família, na hereditariedade. E antes disso. Nossa hereditariedade é isso. E nós reproduzimos isso, cada qual a seu contexto.

Eu reproduzo com os homens, quando não consigo me relacionar com nenhum deles de maneira saudável. Quando acho que eles tem que me punir, me maltratar, entre outras coisas. Eu reproduzo isso em mim, quando penso em me matar o tempo todo e quando penso que nada do que eu faço vale realmente a pena. Eu reproduzo isso com as mulheres, quando as trato como inferiores. Assim como trato você. E odeio todos. Mas esse ódio, essa tristeza me fazem mal. Isso é o que vai me matar, eu espero. Eu espero a morte, mãe. E não sei como pedir ajuda. Não sei pedir ajuda pra você, porque você mesma precisa de ajuda também embora negue. Nós duas precisamos. Mas você nega. E eu não. Eu sei que preciso, eu busquei, mas é tão difícil com você me falando tanta coisa. Caramba, é tão difícil não poder contar com você. Saber que você me cristalizou num rótulo, saber que me colocou numa caixa. Ouvir você dizer que tinha que ter me matado como matou os outros bebês que abortou. Saber que não sou útil, que não sirvo pra nada, que sua vida seria melhor sem mim. Você sabe o que é ouvir isso e saber disso desde que eu estava na sua barriga? Nunca fui parte de você. Sempre fui rejeitada. E você ainda acha estranho que eu não demonstre carinho por você. Mãe, eu não sei. Sinceramente, eu não sei como é isso, caramba. Não sei.

Não sei o que são essas coisas. Tudo de mim é povoado por tanta tristeza, ódio, maldade. Eu não sei o contrário.
Eu fico aqui o tempo todo implorando uma chance de que você queira realmente me conhecer. Conhecer o que eu sou e não o que você esperava que eu fosse. Eu não vou ser o que você quer, caramba. Eu não quero. Quero fazer meu caminho mesmo meio perdida, sem saber por onde começar.

Acho que é isso. E não vai terminar nunca. Infelizmente, eu penso que só vou ser livre quando for embora. Mas agora eu não posso. Não dá. Eu não tenho cabeça pra isso, embora seja fácil pros outros me dizerem o que fazer, eles não estão na minha pele nem na minha cabeça. Não sabem, nem você sabe, que vivo à beira de um ataque de nervos. À beira de enlouquecer totalmente. Eu sei que estou assim.

Eu não sei mais o que dizer.

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Um comentário em “H,

  1. Marioneta Inquieta
    26 de fevereiro de 2014

    O que eu chorei ao ler a sua carta. Que coragem! Um abraço para dar força*

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Publicado às 26 de fevereiro de 2014 por em Cartas para mães e marcado , , .
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