Projeto Caneta Vermelha

Não é a cor da tinta, é a cor do texto

Carta de amor para a menina que eu fui um dia

Menina,

Com 29 anos de atraso, esta carta é para ti. É homenagem ao teu sorriso, à tua dor, aos teus medos e fraquezas, e à tua inabalável e gigantesca capacidade de amar. Mas, este conjunto de palavras amigas e sábias, serve igualmente de aviso: quero recordar-te que esse amor tão sofregamente procurado nos outros, deves procura-lo primeiro em ti e para ti. O primeiro passo para uma vida feliz será o momento em que começares a ser alvo desse amor, e dessa forte compaixão que sempre ofereces aos outros. Mesmo aos que te devoraram como abutres.

Aceita a tua beleza. A beleza que tens enquanto ser único, irrepetível e insubstituível. Desfruta da tua voz e das palavras que com ela animas. Acarinha todas as emoções que te ajudam a crescer e a sobreviver. Nunca duvides das tuas intuições, protege-te sempre, nutrindo o teu corpo e a tua mente.

Há muitas verdades, sobre o mundo e sobre a vida, que a tua família e os teus professores nunca te ensinaram.
Nunca te disseram, por exemplo, a maior e mais poderosa das verdades: tu és o ser mais importante que existe! Se não conseguires/puderes amar-te e defender-te dos ataques do mundo, irás acumular muita raiva dentro de ti. Raiva não expressa é raiva que se vira na nossa direção. Esse ódio a ti mesma tornar-te-á cada vez mais dependente do amor dos outros, e consequentemente far-te-á prisioneira das suas opiniões. Com o tempo perderás o amor por ti mesma e apenas restará a culpa. Esquecendo quem te agrediu violentas-te a ti mesma.

Ao contrário do que os teus pais te ensinaram (eles também desconheciam o que é ser amado pelos seus progenitores) deves honrar sempre os teus desejos e emoções, mesmo que isso possa desiludir os outros. O único amor que vale a pena aceitar é aquele que provém de alguém que nos aceita tal como nós somos. Com as nossas idiossincrasias e vontades.

Estou ciente de que os teus pais apenas te amaram como recompensa, quando fazias algo por eles: como ter boas notas ou dizer a frase certa para impressionar os vizinhos ou a família. Aprendeste que o teu valor depende do teu sucesso, sendo que sucesso é sinónimo de agradar aos outros ou servir os seus interesses. A dor que sentes, eu sei meu amor, é imensurável. Por isso hoje quero abraçar-te com as minhas palavras e dizer-te: – “És valiosa tal como és!”. Nunca permitas que alguém te faça duvidar do teu valor, por não cumprires as suas expectativas ou não alimentares o seu ego. Tu não existes para servir ninguém, mas sim para te amares a ti mesma e descobrires a tua felicidade.

Outra questão muito importante são os teus limites e o teu espaço pessoal. Não são negociáveis. Sei que desde cedo te quiseram negar o direito a existir (mas não conseguiram e esta carta é a prova disso). Cresceste na companhia de uma mãe invasiva, que mexia no teu corpo sem pedir permissão, que não te deixava fechar a porta do teu quarto, e que te assombrou com as histórias dos seus traumas e da violência que não conseguia conter dentro de si. É natural que no momento presente tenhas muita dificuldade em entender quais são os teus limites, mas o teu corpo sabe-o, por isso ouve-o com muita atenção. Quando te eriçares como um gato, sentindo todo o corpo em tensão, então alguém te invadiu e te agrediu. Aceita essa raiva como natural e benéfica, como mecanismo de defesa e sobrevivência, e canaliza-a para o teu agressor. É ela que te permitirá afirmar a tua personalidade e definires quem és. Nunca é tarde para definires as tuas barreiras. Só quando somos unos podemos viver em harmonia na companhia dos outros.

Por último quero escrever-te sobre o teu tempo. Todos temos o nosso tempo, o nosso ritmo fisiológico e emocional e apenas encontraremos equilíbrio emocional se o respeitarmos. Sim eu sei, vais dizer-me que te batiam na escola quando não sabias responder a algo que já devias saber. Escrevo em itálico pois hoje sei quão violenta e devastadora é essa ideia. Tem sido o teu maior inimigo, sempre a sussurrar-te ao ouvido não te dando paz, impedindo-te de seres espontânea e aproveitar o momento. Mas reconheço também como foi um importante mecanismo de defesa no passado, como resposta a uma escola de professores sádicos e ao convívio com uma irmã mais velha cujo amor-próprio dependia de se saber mais experiente e informada do que tu. Meu amor vou dizer-te o que significa essa agressão. Muitos adultos e crianças vivem no terror da ausência de auto estima, vazios de si mesmos. A agressão ao outro, a sua desqualificação e humilhação, funciona como o único método por eles conhecido de afastar esse fantasma que os atormenta. Geralmente o outro é sempre alguém mais novo, mais ingénuo, menos experiente, e por isso numa posição de enorme dependência e vulnerabilidade.

Não houve uma voz adulta que te protegesse dessas acusações de incompetência, que te pudesse acalmar e dizer que em boa verdade não existe nada que já devesses saber ou ter experimentado. Todas as tuas experiências e saberes têm enorme valor, e apenas deves desejar conhecer e experimentar aquilo que tem genuíno interesse para ti.

Esta voz não pôde acarinhar-te mais cedo minha querida, mas 29 anos depois ela é tua e estará a teu lado para enfrentarmos juntas todos os desafios, alegrias e desilusões que a vida tem reservadas para o nosso futuro. E recorda sempre, que para amares o outro e viveres um amor pleno, terás primeiro de desenvolver um amor incondicional por ti mesma, amando os teus defeitos e virtudes em pleno e respeitando-te a ti mesma.

Com amor,

D.

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Publicado às 24 de fevereiro de 2014 por em Cartas para outras mulheres e marcado , , , , , , .
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