Projeto Caneta Vermelha

Não é a cor da tinta, é a cor do texto

Submissão de uma carta

Mãe, eu te amo.

Mesmo quando dissestes que eu não sei escrever, mesmo essa sendo minha paixão. Quando rasgastes um livro na minha frente para que eu te ajudasse no serviço de casa.

Eu te amei quando me coloristes o rosto da pior maneira possível. Eu te amei quando me chamastes de aberração porque eu também amava os corpos de meninas, e queria me internar em um hospício por conta disso. E me fazer trocar de escola. E tentar explicar por que diabos eu não podia ser como as outras meninas cujas amiguinhas eram só amiguinhas. E ter de aguentar desde os 16 anos, no osso do peito, a dor do mundo por ser bissexual em uma família homofóbica e misógena.

Mãe, eu te amei mesmo quando me perguntaram por que eu tinha marcas em meu rosto e fui obrigada a responder que havia brigado com uma porta e perdido. E eu me senti humilhada de ter que pedir aos professores um prazo maior para entrega de trabalhos e ter de ir em semana de provas com o rosto destruído para a faculdade. Eu te amei mesmo sabendo que aquela não era a primeira vez que me fazias aquilo. E não seria a última.

Mãe, eu te amei quando eu te colocava para dormir, quando sentia orgulho de ti , por sozinha, com vários empregos, conseguires sustentar a mim e ao meu irmão e manter toda a casa em ordem. Mesmo quando me fizestes sentir que eu era a errada, a filha ruim. Eu te amei quando não me destes suporte algum, me tirastes o chão e não me protegestes do mundo. Por que os olhos roxos só me mostravam como as coisas lá fora podiam ser mais cruéis que dentro.

Eu te amei mesmo quando tu não me deixastes outra alternativa além do sofrimento.

Eu suportei tudo e continuei a te amar. Eu aguentei as dores que me causastes, os ferimentos que me inflingistes e o fato de que não me deixastes nenhuma outra opção além de me levar para fazer aquele aborto ilegal, aquela vez. Por que eu não tinha como me sustentar sozinha e tu ias me colocar para fora de casa. E estava fazendo 20 anos naquela semana. Minha formatura na faculdade seria no fim daquele mês… E continuei a te amar mesmo quando dissestes que se houvesse qualquer coisa séria, ias me deixar na frente do hospital e ir embora. Por que tu não podias ser presa.

Por que no fim, tu me abraçavas forte. Por que quando todo aquele sangue escorreu pelo ralo e eu achei que ia morrer, tu me abraçastes forte. Por que sempre superamos as coisas juntas. Por que quando meu pai te bateu, eu te defendi sempre e tu sabias. Por que tu dormias comigo te fazendo carinho. Por que tu eras tudo para mim.

Mãe, eu sempre te amei. Mesmo que fizesses as coisas mais absurdas contra mim, eu te amava. Mesmo por me punires a todo instante por que eu fazia perguntas demais.

Eu sempre fui a melhor da classe, passei no vestibular de uma federal sem cursinho nem nada. Eu sempre fiz meu melhor. Eu não pedia nada além do que podias me dar. Tu me davas o presente por que querias (geralmente depois de perderes a cabeça e quebrar a minha boneca em mim, ou a vassoura, mas antes de ser adulta, nunca percebi que aquilo era culpa), lembra? Tu gostavas de mostrar para tuas amigas a filha que lia livros dificeis antes dos 10 anos. Eu sempre me senti culpada por te magoar e decepcionar. Por que eu não consegui terminar minha pós e nem entrar para o curso que sonhava em entrar. Por que eu não conseguia passar em concurso público nenhum… Como nós duas gostaríamos que eu passasse.

Até que houve aquilo.

Até que meu irmão começou a sair. E não precisava de horário para voltar. Até que a namorada de dias dele pode dormir lá em casa no quarto com ele e meu noivo ainda tinha horário para ir embora. Até que a namorada dele engravidou e tu não falastes em aborto. Até que a namorada dele foi morar conosco e tu ficastes doente.

E nós as duas começamos a conversar, como eu faria, em semana de provas na nova faculdade, para ficar contigo. Até que meu irmão e brigou comigo e tu destes apoio para ele.

Mãe, meu amor não suportou aquilo. Eu fiz um aborto ilegal em um lugar sujo, sem direito a gritar por que tu me dissestes que aquilo era o melhor. A culpa eterna era o melhor. Por que tu não me darias apoio nenhum por que eu já era adulta e iria me formar. Meu amor não suportou ver que, no fim, todo o amor que sentia por ti, era apenas mais uma arma tua para te vingares do mundo em alguém. Perceber que todo aquele amor e carinho que te dei, por que sabia como minha avó foi contigo, era nada. Já que querias fazer comigo o que ela fez contigo. Meu amor não suportou ver que fazias comigo, o que fizeram contigo em tantas outras formas.

Não mãe, aquela violação final, me negares ser mãe para depois apoiares meu irmão em todas as suas loucuras depois, foi demais.

Por isso eu fui embora mãe.

Por que senão, além de deixar de te amar, eu iria começar a te odiar. Por que no fim,todo meu esforço por ti, nunca valeu a pena.

Sua eterna filha problema, S

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3 comentários em “Submissão de uma carta

  1. Silvana Moura Fagundes
    21 de agosto de 2013

    mães erram, a minha errou, feriu uma menina cheia d sonhos…
    O mais importante é a superação, é saber que nos tornamos fortes, ainda que haja momentos exaustivos, e conseguimos o diferente, não repetimos os mesmos erros.Beijos no coração.

  2. zilene
    3 de setembro de 2013

    Não repetir os mesmos erros e … acima de tudo, perdoar-se a si mesma. Somos todos seres humanos, falíveis. Em uma jornada de aprendizagem, erros e acertos, mas sobretudo… de crescimento.

  3. Stephany P. Mencato
    9 de outubro de 2013

    linda carta, realmente uma história encantadora. Muitas vezes nos afastar de quem mais amamos é essencial quando percebemos o mal q este amor nos faz.

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Publicado às 16 de agosto de 2013 por em Cartas para mães e marcado , , , .
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