Projeto Caneta Vermelha

Não é a cor da tinta, é a cor do texto

Querida,

Eu sinto muito. Eu sinto muito pelo o que você teve que passar – sozinha. Eu sinto muito pela violência que você sofreu, tão injustamente. Sinto tanto tanto. Eu sinto muito pela minha reação quando você me contou. Acho que não te acolhi como deveria. Eu fiquei com medo. Eu fui egoísta, eu sei, mas eu juro que foi o melhor de mim naquele momento. Eu fugi e fingi estar tudo bem, fingi que não foi nada, só um arranhãozinho, que já já ia sarar. Eu sei que não é só um arranhãozinho. Eu sei que doeu e dói. Muito.

Me dói sempre, de uma dor agoniante, pensar no que aconteceu. Eu sei que parece clichê falar, mas é tão verdade: eu queria ter sofrido essa dor e ter te poupado. Pode ser clichê, mas é o que eu sinto no momento. Eu queria tanto isso. Queria ter estado lá, naquele momento, queria ter feito alguma coisa. Queria ter esmurrado quem fez isso com você.

Queria ter te avisado antes pra tomar cuidado – é, é injusto, eu sei. Eu sei (racionalmente) que as mulheres tem o direito de sair e fazer o que quiser, a hora que quiser, com a roupa que quiser, mas, bem… meu sentimento é que eu poderia ter te avisado para evitar algumas coisas. Eu poderia ter te falado para não confiar nos homens. Sei que é absurda essa ideia, eu sei disso, mas eu me sinto assim.

Você tá em uma idade tão boa. Tão nova. Tão linda. Tão rebelde, e corajosa. Eu sinto tanto tanto por essa experiência ter te roubado tanta coisa, tanto brilho, tantas noites de sono, tantos sorrisos.

Eu também sinto muito por você viver nessa sociedade machista. Por você não conseguir contar para ninguém mais e ter que fingir que tá tudo bem. Sinto tanto por você ter que chorar no banheiro, silenciosamente, sem um abraço, sem poder gritar, quebrar copos, esmurrar almofadas. Sinto tanto por você ter que fingir pra quem você ama. Sinto tanto por cada vez que você ouviu algum comentário sobre a culpa ser da mulher, sobre ela estar pedindo, sobre ela estar se comportando feito puta e por isso mereceu. Sinto muito mesmo pela sociedade vomitar em você tudo isso e um mais um monte e ao mesmo tempo, te cobrar tanta coisa, que está fora do seu alcance.

Eu repeti tantas vezes que ‘vai ficar tudo bem’. Eu não sei se vai ficar tudo bem, na verdade. Eu gostaria de fazer alguma coisa… Essa dor é sua, e só sua. Mas apesar disso, você não precisa lidar sozinha. Você pode pedir ajuda. E tudo bem se você precisar de ajuda. Tudo bem.

Também tudo bem chorar. Ficar de luto. Deixar doer. Mas, de novo, não se cobre para lidar com isso sozinha e rápido.
Não se culpe. A culpa não é sua. De nada disso, nem pelo o que aconteceu, nem por você não conseguir reagir como você gostaria, nem por ter sentido todos aqueles sentimentos, nem por não estar aguentando sozinha… Não fuja, não ignore a si própria. Você merece ser ouvida, e acolhida.

Quero te lembrar o quão incrível você é.

Você é demais, eu sempre te admirei.

Força. ❤

Com todo amor do mundo,

Natália

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Publicado às 15 de agosto de 2013 por em Cartas para irmãs e marcado , , .
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