Projeto Caneta Vermelha

Não é a cor da tinta, é a cor do texto

Mama

Mama, faz tanto tempo que a gente não se vê. Eu não sei escrever cartas e não sei de onde veio essa vontade agora. É que tem tanta coisa que eu queria te falar, mas é difícil por telefone.
E pessoalmente também.

Você sempre foi a pessoa mais próxima do meu coração, e o nosso relacionamento de apoio mútuo é muito maior que um relacionamento de mãe e filha. Você é minha amiga, minha irmã. Você sabe que eu não ligo pra laços de sangue, pra família. Você também não liga muito. Você sabe que eu dou risada quando dizem que eu devia voltar a falar com o meu pai porque “ele é meu pai” – depois de tudo que ele fez contigo e comigo. Mas você, eu te escolhi pra ser minha mãe. Eu escolhi te chamar assim. E isso é muito mais forte do que qualquer laço de sangue entre a gente.

É engraçado que a nossa vida tenha tomado esse rumo cigano. É triste que a gente nunca esteja perto o suficiente. Você tá sempre mais pro nordeste, pro calor, pra praia. Quase um passarinho que voa pra encontrar calor. Eu tô indo cada vez mais pro sul. E já foi o contrário também, lembra?

Eu sinto muito que o tempo que nós moramos juntas tenha sido nas minhas piores fases. Que a minha depressão aos 13 anos tenha te feito tão mal a ponto de querer ir embora de novo. E a gente nunca mais ter conseguido se encontrar por muito tempo depois disso.

Mas embora as pessoas a nossa volta estejam sempre prontas pra te julgar, pra assumir que você me largou no mundo, que me abandonou, que não se importa comigo, eu sei que não é verdade. Nós duas sabemos. A culpa não é sua. Nem minha. Foram as suas escolhas, e as minhas escolhas, e o nosso respeito pelas escolhas uma da outra que nos trouxeram até esse ponto. Não te vejo desde o natal passado. Mas tudo bem.

Tenho histórias engraçadas daquele natal pra contar pras pessoas, de quando você descobriu que eu não fazia questão de tomar banho todos os dias e deu xilique. E que isso acabou resultando na primeira vez em que eu te disse que gosto de moças, e você não se importou nem um pouquinho, como eu sempre soube que não ia se importar. É engraçado, mas é triste que você não me conheça tão bem assim.

Eu te conheço, mãe. Eu sei o que é importante pra você. Mas você não teve tempo de me conhecer, né?

Eu tenho tanta coisa pra te falar.. Eu sinto muito que você tenha sofrido tantos anos nas mãos daquele monstro por não querer se afastar de mim. Eu sinto muito que você tenha que ouvir pessoas conhecidas e desconhecidas dizendo que mulher que apanha é porque quer ou deixa. Você sacrificou tanta coisa por minha causa, e eu sou tão, tão, tão grata. E tão feliz por você estar recuperando essas coisas agora. Fico feliz de você estar estudando e correndo atrás do que você quer. Fico feliz de você estar num relacionamento com um homem que te ama e te respeita agora. Eu fico tão feliz por você.

Eu fico muito feliz pelo dia em que você chegou pra mim e disse “não aguento mais” e foi embora daquela casa, pra longe daquele monstro que te machucava por dentro e por fora. Eu disse “demorou”, você lembra? E te ajudei a fazer as malas.

E anos depois, eu mal sabia, você faria o mesmo por mim. Quando eu já não aguentava mais e precisava ir embora da casa daquelas pessoas que me magoavam, você disse “demorou” e me ajudou a fazer as malas também.

Ninguém nunca vai conseguir compreender o amor e o apoio que existe entre a gente.
Mas você ainda não me conhece, mãe. Você não me viu crescendo e amadurecendo, você se assusta cada vez que me vê, não pelas mudanças físicas, mas por ainda ter no coração a imagem daquela criança de 10 anos que te ajudou a fazer as malas pra você ir embora.

Eu sou outra pessoa, mãe.

Eu lembro quando você falou que queria que essa “fase de rebeldia com o mundo” passasse logo. Não vai passar, mãe. Eu amo o mundo em que eu vivo, e é por isso que eu me rebelo contra ele. Porque eu sei que ele podia ser TÃO melhor. Porque eu sei que ele machuca tanta gente, que te machucou no passado, que ME machucou no passado.

Eu tenho tanto de mim pra te mostrar, mãe.. espera, você tá me ligando agora.

“Adivinha quem vai ser avô, filha? O Hélio! Ele tá todo bobo” e você tá toda boba também.

Me perdi. Te amo.

Sua, Samantha

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2 comentários em “Mama

  1. Rafaela
    14 de agosto de 2013

    Que linda carta, espero que você possa rever logo sua mãe e poder dar aquele abraço nela…Vocês são guerreiras!!!

  2. don't call me thaisinha
    14 de agosto de 2013

    Maravilhosa carta! Me emocionou muito!

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Publicado às 14 de agosto de 2013 por em Cartas para mães e marcado , , , , , .
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