Projeto Caneta Vermelha

Não é a cor da tinta, é a cor do texto

À Ana Maria

Como começar uma carta? Eu nem sei o que te escreverei. Mas já tenho medo.

Não faz sentido perguntar como você está. Não faz sentido eu te dar oi.

Eu li aquela frase lá esses dias: “O inferno são os outros”.

Fiquei pensando: o pior dos infernos habita em nós.

O inferno que são os outros é fácil. A gente vai embora.

Tu mesmo já partisses tantas vezes!

Mas esse inferno que a gente carrega…

Esse… Bem sabes que fugir de si é inútil.

Habito esse inferno vez ou outra. Tenho criado algumas saídas. Descoberto chaves. Mas ele está aqui. Eu posso fingir que ele não existe. Posso caminhar longe na floresta escura. E ele está aqui.

Eu tenho medo de te escrever porque isso é o espelho no espelho. E sei que por mais que eu veja não dou conta de enxergar.

Acho que essas linhas dizem muito dessa nossa relação. Tudo quebrado, ambíguo, intangível.

Você sou eu ao avesso. Não adianta: se vejo a frente, não vejo as costas. Se olho as tripas, perco a pele. Porque ser pra si é escapar entre os dedos.

E isso antes me dava tanto medo.

Sentir que eu me escapava entre as mãos. Que eu transbordava enquanto tentava me agarrar.

Me dava tanto medo a falta de continente que é o mundo.

Eu ali existindo, meu pelo, minha pele, meus pulmões.

Eu sou você ao avesso.

Fico me virando, me desvirando. Insistindo em me indefinir. Por isso eu tinha medo de dançar.

Por isso eu tenho medo de amar.

Parecia que se eu dançasse transbordaria ainda mais. Sairia de um jeito tão nu aos olhos crus do mundo.

Era doído cair no mundo e sentir as mãos abrindo e o poro estatelando no chão. Mas isso acontecia porque querias fazer caber entre palmos um céu cheio de estrelas. Tu és do tipo cadente.

Não adianta. Tenho esse excesso. Essa incongruência com os tempos verbais. Tenho esse calor no peito e nas coxas. Tenho isso que precisa ser liquefeito. E não assume uma forma. Isso que te lambuza as mãos e a boca. Que te dá verbos e substantivos. E lágrimas. Isso que roda a tua saia e te faz tropeçar no chão.

Não adianta achar que uma hora Mariana irá fazer comportas para Ana Maria. Mariana não pode ser represa. Ela é porosa. Ela é cheia de buracos e frestas, Ana Maria. Não adianta, Ana Maria. Você vai escorrer pelo mundo.

Vazarei por entre os dedos: as tripas, a pele, as costas, os seios.

Talvez quem sabe algo possa ficar. E você não tenha que se transbordar toda: corpo, casa, cria para outro lugar, outra cidade, mais uma saudade, tudo outra vez.

Temos que suportar nossa falta de cabimento, Ana Maria. Alguma coisa tem que ficar, Ana Maria. Não dá para ir embora sempre. Não precisamos ir embora sempre, me entende Ana Maria?

Descobri uma poção que transforma o medo em borboletas no estômago. Depois é só as deixar voar. Virarem grito. Virarem mãos se enlaçando. Verbo atrás de verbo atrás de verbo. Virar uma transcrição do corpo.

As borboletas vão voar e ser encontros.

Vão virar coragem.

Um borboleta pode ser o que você quiser, Ana Maria.

Eu queria te dizer isso. Sobre o medo. Que ele pode virar uma borboleta e sair voando. E você vai ficar mais leve para dançar.

Não vejo como sentir saudades.

Não vejo como te encontrar de novo.

Como de costume não espero resposta.

Quem sabe encontre seus rastros por aí.

Há braços.

Mariana

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2 comentários em “À Ana Maria

  1. Setsuna
    15 de agosto de 2013

    Isso me fez lembrar minha antiga paixão. É tri estranho, a pessoa ali do lado e tu não vês um por que de dar oi, mesmo querendo…

  2. eduarda :D
    19 de janeiro de 2014

    LINDOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!!!! LINDO LINDO!!!

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Publicado às 14 de agosto de 2013 por em Cartas para amantes e marcado , , , .
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