Projeto Caneta Vermelha

Não é a cor da tinta, é a cor do texto

Para minha mãe

Você sempre me falou que eu escrevo muito. Sempre falou que eu tinha uma imaginação muito grande, ampla e plural. Você sempre elogiou cada texto do meu blog, embora batesse o pé e falasse “eu não sou feminista”. É, mãe, depois de escrever para tanta gente (e depois de querer escrever para o mundo todo)… eu escrevo pra você.

Nesse exato momento, você está em uma mesa de cirurgia. Eu sei que tudo vai dar certo. Não tenho fé em nada além de você e acredito que você é guerreira o suficiente para superar uma cirurgia. O que eu quero falar pra você é mais um agradecimento. Eu quero te agradecer pela minha educação, saúde e minha formação feminista. Antes de tudo, agradeço pelo esforço que você fez todos os dias (e continua fazendo) para me educar. Agradeço como você sorriu pra mim quando falei que queria cursar História. Enquanto todos os outros olhares familiares me questionavam se eu queria realmente ser pobre, você somente me disse que eu seria feliz fazendo aquilo que gostasse. E, mãe, eu vou ser feliz dando aula. Aliás, tive uma professora excelente dentro de casa, que me mostrou os valores da vida.

Quero agradecer pelo dia em que, numa conversa rotineira, você me disse: “Filha, você pode trazer uma menina pra apresentar pra mamãe. Mamãe não liga para isso… Só quero a sua felicidade”. Eu sei que a você nunca vai ler essa carta, então fico tranquila em falar: Eu nunca vou desmentir. Eu nunca vou falar com todas as letras que eu não sou lésbica. Eu tenho que te agradecer eternamente por ser uma mãe tão maravilhosa e deixar claro que aceita quem o meu coração quiser amar.

Eu te agradeço também por todas as vezes que você gritou para eu colocar o chinelo e não ficar descalça. Todas as vezes que você ficou me lembrando o horário do remédio de cinco em cinco minutos e todas as vezes que teve que me obrigar a tomar aqueles remédios com gosto ruim.

Só que, nos últimos tempos, vejo que só sou feminista por causa de você. E logo por você, que sempre falou que não era feminista. É mãe, a senhora pode não aceitar o termo para você, só que o termo em si já te aceitou há tempos. Você me criou para ser independente, nunca depender de marido. Você me ensinou que eu deveria ser livre para amar; e amar intensamente. Também foi você que me ensinou que homens e mulheres são iguais, embora não sejam igualmente vistos na sociedade. Você me mostrou que eu teria que trabalhar muito mais, estudar muito mais, para chegar aonde eu queria. Você foi a primeira divorciada da família, foi mãe solteira, depois casou-se novamente. Você enfrentou vários preconceitos dentro da família para poder encontrar a sua felicidade.

Então, mãe, a senhora me deu uma educação feminista. Você nunca me apontou o dedo e disse que eu estava errada pelas agressões do mundo. Ao contrário, você apontava pro mundo e falava “isso, isso e isso… tá na hora de mudar!”. Sei que, na hora, você só tava pensando mesmo em uma maneira de me fazer arrumar o quarto. Mãe… eu resolvi que quero ajudar a arrumar o mundo!

Eu te amo e estou com saudades.
Volta logo dessa cirurgia.
Com amor, Clarinha.

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Publicado às 13 de agosto de 2013 por em Cartas para mães e marcado , .
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