Projeto Caneta Vermelha

Não é a cor da tinta, é a cor do texto

Filha

Eu decidi engravidar de você uns 5 anos antes da sua chegada. Após a chegada da sua irmã, que revolucionou a minha vida, eu queria muito ter você também.

Eu nunca imaginei nem próximo do que você é hoje. E embora soubesse que sentiria um amor avassalador, eu não sabia como seria. Só tinha uma certeza: eu estava entregue e pronta.

Eu sofri muitas dores com a chegada da sua irmã. Eu descobri um mundo totalmente diferente do que eu conhecia. Eu descobri o parto, eu me descobri parindo e conheci as vísceras da minha vida. Foi um renascimento, que dura até os dias de hoje e não sei se um dia chegará ao fim.

Eu sabia que você nasceria num parto intenso. Eu desejava a nudez, o toque, o cheiro, o gosto.

Você chegou no seu tempo, que eu respeitei e permiti. Eu descobri a gravidez depois de uma viagem, foi um choque. Embora eu quisesse muito engravidar, é muito diferente quando se fica cara a cara com os dois risquinhos nítidos. Depois deste teste, eu repeti 7 vezes até entender de uma vez por todas que, sim, eu estava grávida novamente. Eu vomitei tudo e mais um pouco até as 14 semanas. Acho que vomitava tudo que eu não queria para aquela vida, vomitava tudo que eu achava injusto. Eu me sentia um caco. Um pedaço. E foi assim, durante os primeiros 4 meses. Depois as coisas foram melhorando e eu pude curtir a barriga redonda, enorme, deliciosa. Sim, eu amo estar grávida. Eu amo o peso, os sonhos, o tesão. A energia que parece não ter fim. Dessa vez eu não procuraria um(a) médico(a) e sim uma parteira. Dessa vez eu não sairia da minha casa. Quantas vezes imaginei o momento, as contrações, a intensidade na minha cama ou no meu chão. Com 37 semanas eu tinha tudo pro parto, toalhas, fraldas, protetor de colchão. Perdi um pouco de muco, me animei. Sentia as contrações de treinamento ainda fracas, porém frequentes.

Eu acompanhei partos durante a gravidez, e o último foi de uma amiga querida quando eu estava com 38 semanas. Algo em mim me dizia que você só chegaria perto das 42 semanas. Algo em mim não queria que você viesse antes, porque queria curtir até o último dia possível. E assim passei as 40 semanas, ansiosa e cheia de esperança.

Sua irmã completou 5 anos e nós cantamos um parabéns baixinho, com uma fatia de bolo de chocolate. Eu fui dormir.
Acordei as 2:30 para fazer xixi, e me senti estranha. Sabia intimamente que aquele era o dia. Eu estava de 41 semanas e 4 dias. A cada contração eu me entregava, permitia, dançava. Sentia um prazer enorme correndo em meu corpo poderoso.

Perto das 5 da manhã as contrações eram fortes. Aviso doula. Sua irmã acorda com febre, irritada. Vou pro banho com ela, ficamos lá um tempo. Ela pede para lavar minha barriga. E aí começo a me irritar e querer ficar sozinha. Saímos do banho, ela faz banana com aveia pra mim, eu como e vomito.

Peço que ela durma. Volte a dormir, por favor. Me deixe em paz agora. Ela pega no sono como saiu do banho, nua, com cabelos molhados e eu posso, definitivamente me entregar para o trabalho de parto.

Parteira avisada. Ando pela casa, também nua, também com cabelos molhados, resmungando as vezes baixo, mas na maioria das vezes alto, explícito, livre.

Lembro do seu pai olhar sua irmã e me observar, lembro dos pensamentos malucos que tive sobre seu nascimento.

8 da manhã a amiga que iria tirar foto chega, a parteira também. Percebo que não mais estou no olho do furacão, percebo que algo mudou. Me toco, nada mais de colo está a frente da sua cabeça, eu sabia que você logo iria chegar. Volto pro chuveiro, pego uma toalha de rosto coloco no chão do box. Tento deitar de lado, peço para dormir e as contrações me levam ao extremo. Como em um mar bravo, sem tempo entre uma onda e outra. Eu apenas respiro e grito. Grito pelo meu corpo, meu corpo que é capaz de gerar uma vida, que é perfeito a ponto de expulsá-la de mim na hora certa, grito com toda força de mulher que conhece a sombra e a luz, que vivencia a dor e o prazer.

Contração de novo. A bolsa se rompe. Eu com olhar baixo, enxergo cada gota de água espirrar, como em um filme em câmera lenta.

E de repente sinto queimar, minha amiga doula que estava comigo no box coloca a mão embaixo a pedido da parteira para ver se é você chegando, mas ela faz que não com a cabeça, ainda não. E sinto a próxima contração, a mais potente, a mais forte de todas. A que eu sinto estalos, que eu sinto quente, molhado, sou capaz de sentir seus movimentos ainda.

Sinto medo. Fúria. Poder. Sai sua cabeça em minhas mãos, uma delicadeza rude, se desprende, como se pousasse em minhas mãos enquanto estou ajoelhada, nua, suada, debaixo do chuveiro de casa. Seu pai então pega o restante do seu corpo comigo. Eu me toco, olho um pouco de sangue em minhas mãos, sinto o cordão vivo, gelatinoso. Te agarro, massageio suas costas e peço sussurrando que você fique comigo. “Fica comigo, fica. Eu te esperei por tanto tempo. Fica comigo.” Te beijo, te cheiro, te abraço. Nada romântico, delicado. Um parto visceral. Cru.

Vou pra cama com você conectada comigo ainda, com seu olhar me seguindo bem atento e me sentindo a mais incrível das pessoas. Eu sofri violência no parto da sua irmã, eu fui roubada em vários momentos. E sua irmã foi afastada de mim. Dessa vez eu não deixaria isso acontecer. Você saiu do meu colo para o colo da sua irmã, que ficou encantada em te receber também. Ficamos as três na cama, sentindo cheiro de parto, sentindo gosto da manga cortada, aproveitando o momento intocável.

Eu me apaixonei por você, diferente do que foi com sua irmã, um amor que foi construído, o seu chegou avassalador. Tenho pra mim que tem tudo a ver com o coquetel de hormônios que pude transbordar.

O parto tem tudo a ver com você. Hoje vejo os traços daquela manhã no seu jeito. Nas suas decisões, nos ímpetos. E tem tudo a ver comigo. Com essa nova mulher que renasceu ali.

Você é uma filha incrível, e eu amo você cada dia mais!

Parir-te me fortaleceu muito. E, claro, como eu já esperava, vivi novas revoluções desde sua chegada, linda. Que possamos dividir muitos e muitos dias de amor e muitas outras cartas como esta.

Um beijo.

Leticia Arruda

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2 comentários em “Filha

  1. Larissa
    12 de agosto de 2013

    Muito linda essa carta… Quando a filha aprender a ler e visualizar essas palavras, pode ser que chore como eu chorei de emoção.

  2. Rafaela Costa
    1 de fevereiro de 2014

    Lindo relato … Nasce uma filha , renasce uma mãe .

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Publicado às 12 de agosto de 2013 por em Cartas para filhas e marcado , , , .
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