Projeto Caneta Vermelha

Não é a cor da tinta, é a cor do texto

Carta para Pandora

Pandora,

A visão de um homem acorrentado ao Cáucaso com seu fígado insistentemente comido por uma águia me fascina: em parte pelo castigo exagerado, em parte pela própria visão sombria, em parte porque é um sacrifício do titã para que os homens possam ter o fogo, o conhecimento, o poder sobre os deuses. Prometeu acorrentado é uma homenagem à sabedoria.

Não sabia que a moça da caixa, que na realidade era uma jarra, era parte do sofrimento de Prometeu – não sabia que sua punição não ficou restrita às entranhas da Terra. Mais tarde, lendo um livro baseado no mito, descobri que uma mulher, a primeira mulher – bem que eu havia estranhado que a criação de Prometeu fosse estranha e estritamente masculina – foi criada como o maior castigo. Pior do que ter o fígado destroçado por toda a eternidade, o maior amor de Prometeu, suas crianças, seriam corrompidas por aquela que foi a primeira mulher. A que criaria uma linhagem do mais terrível ser que Zeus e seu panteão podiam conceber.

Ela – você, Pandora – você foi feita com todo o cuidado para, quando sobre a Terra, causar a discórdia na criação de Prometeu. Pandora quer dizer, repito sabendo que você sabe, todos os presentes dos deuses, pois cada um deu a você aquilo que podia fazer de melhor, na esperança de que a combinação de todas as melhores coisas culminasse na pior. E nas suas mãos puseram a jarra com todos os terrores, confiando que suas qualidades fariam com que você abrisse. É um destino cruel, uma vingança cuidadosamente arquitetada e, concordo, amarga, que é mesmo muito mais infeliz do que sofrer eternamente com um fígado que se reconstitui.

O que há de errado com esse castigo, porém, é que não é um problema para Prometeu, que aliás foi salvo por Hércules. A condenação é mais pesada para você, Pandora, que não teve sequer o direito de nascer por seus próprios motivos, de existir por si mesma. Sua dor se espalhou por todas as gerações e chegou até nós, que existimos de verdade, que não somos uma lenda, mas carregamos o mesmo fardo, a mesma perseguição – o sangue que mancha os séculos desde as páginas dos mitos.

Eu não vou, no entanto, culpá-la de nada disso. Não quero emitir julgamentos sobre seus atos nem fazer qualquer coisa que não seja confortá-la e, sim, agradecê-la. Se é de você que descendemos, é a você que temos que agradecer por ter sido criada. E é a você que prometemos: vamos existir por nós mesmas. Vamos viver por nosso próprio mérito. Vamos matar essa águia que continua nos extirpando o coração.

Vamos vingar seu nascimento com nossa plena liberdade.

Com amor, com gratidão,

Anesidora, seu outro nome.

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Um comentário em “Carta para Pandora

  1. Luiza
    9 de agosto de 2013

    Que lindo!

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Publicado às 8 de agosto de 2013 por em Ficção e marcado , , , .
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